22/08/2015

A Sala de Ruth - Miso Ensemble


(anterior)
A Sala de Ruth III
Itinerário do Sal pelo Miso Ensemble

Assim como as características do céu estabelecem circuitos racionais para uma compreensão do todo, as características físicas, os ecossistemas endógenos e exógenos, a criatividade na resolução das adaptações ao meio, são determinantes na linguagem dos pássaros.
Esta “linguagem dos pássaros”, como gosto de lhe chamar, eclodiu ontem, pelo início da noite, na Sala de Ruth, em Tavira. Esses entes semelhantes a pássaros são os Miso Ensemble. Três em um, ou em vários, que fomos todos os que assistimos ao espetáculo multimédia de Miguel, Paula e Perceu Azeguime. E muitos mais haverá por detrás da produção de Itinerários do Sal, uma “opera”, como é caracterizada pelos autores. Um bando de pássaros. Dos mais criativos, dos mais genuínos, dos mais salubres. Têm o mesmo tempo da Casa das Artes de Tavira, onde atuaram pela primeira vez, entre amigos, como hoje na Sala de Ruth.
Enquanto nos pássaros da mesma espécie a linguagem é semelhante, na comunidade dos Homens, existem por vezes alguns de entre os demais, de onde emergem grandes criações com a mesma qualidade e teor. “Quase como por acaso” uns deixam-se penetrar, mais do que os outros, por essa linguagem expressiva, onde todas as artes se misturam e atuam em cooperação com o autor, assim como ele o faz também, como passarinheiro que se deseja pássaro. Com um aparente desgoverno, os autores demonstram uma concentração absoluta, Paula e Perceu aos comandos de uma eletrónica aracnídea, Miguel liderando o cumprimento da rigorosa expressão humana da obra, tornando-a leve e natural como o sopro de um improviso. O desempenho demonstra o empenho, a autenticidade e fundamentalmente o grande fascínio de fazer arte.
O verão está a terminar, seguir-se-ão outros. O céu indicia um agravamento atmosférico. Os cirros começaram por se pintarem de pôr-do-sol, instalando-se pouco a pouco durante os dias. Paredes de estratos e limbo-estratos trouxeram cortinas húmidas à altura do olhar durante a noite. O cheiro da erva seca molhada, misturada com humidade da maresia, invade o coração de emoções contraditórias. O frio parece ter-se instado. A ausência de vento acalmou a superfície do mar. Os cúmulos adensam-se e ameaçam no horizonte. Mas a batalha desenvolve-se nas camadas mais altas da atmosfera. Estou satisfeita pela releitura do The Weather Hand Book. Esta pequena obra lavou as mágoas da História dos homens.
Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008) comove pela singeleza irónica com que conta a guerra e as atrocidades das batalhas. Mickey, toma lugar do herói onírico, metamorfoseando-se em besta de um olhar a outro. Encontramo-lo nos planos mais próximos de nós, reproduzido como num caleidoscópio ébrio. Não percebemos quem é quem. Não tomamos partido. Só sentimos a tremenda ironia da ligação entre a raiva, o desespero e a euforia. Sentimos a poeira do ar inquinado, o ruído surdo, o pisar dos corpos que não conseguiram vencer a gravidade. Ao fundo as bandeiras agitam-se no ar. Vitórias ou derrotas são irrelevantes, como nos jogos infantis... A estranha luta que a ambição, a especulação ou a avareza provocam, dão o mote para esta obra.
Bartolomeu Cid dos Santos doou uma grande parte da sua obra à cidade de Tavira, que não tem mãos para a receber. Deixou-lhe também, através do patrocínio da Casa das Artes de Tavira, uma oficina de gravura idêntica à sua em Londres, na Slade School of Fine Art, onde lecionou e trabalhou. Hoje o seu espírito continua a renascer trabalho após trabalho, residência após residência. A Casa das Artes de Tavira, quando transborda, vai para a porta da Oficina Bartolomeu dos Santos (OBS) e senta-se nas escadinhas que ligam a colina de Sant’Ana ao plano das águas do rio Gilão. Como uma nesga de teatro grego, geralmente, um ecrã faz as vezes de proscénio improvisado e o patamar da porta da OBS transforma-se em terreiro da orquestra. Não existe altar porque as oferendas são intrínsecas à arte.
A última atividade calendarizada para este verão, Cadavre Exquis, é precisamente a apresentação pública das obras produzidas a partir de interações diversos autores sobre uma das gravuras de Bartolomeu, Atlantis de 1971.
Como o Miso Ensemble, diremos que os itinerários do sal são poderosíssimos, embora hoje em dia pouco valorizados. Estando num tempo de interrogações a todos os níveis, a instalação de Ilídio Salteiro, Sala de Ruth, propõe uma paragem para refletir e pensar os rumos que se apresentam ao mundo e à arte contemporânea.



Dora Iva Rita, Santa Bárbara de Nexe, agosto de 2015.

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