04/08/2015

A Sala de Ruth versus História das Perseguições Políticas e Religiosas



Quase como por acaso, a minha leitura de férias está a ser a História das Perseguições Políticas e Religiosas de D. Fernando Garrido. Composta por três volumes, editados em 1881 (Francisco Arthur da Silva, Lisboa) e versando sobre os séculos antecedentes, estes livros são, infelizmente, de uma atualidade evidente.
Também, quase como por acaso, há uma exposição que estou a visitar frequentemente durante este verão – A Sala de Ruth – na Casa das Artes de Tavira.
A pretexto das inúmeras exposições estivais que, ao longo dos anos, foram construindo por ali uma estrutura cultural comemorando-se este ano pela trigésima vez, imaginou-se uma colecionadora que incorporasse todos aqueles amadores da Arte, que a colecionaram, debateram, analisaram e contemplaram – que a viveram. Na Sala de Ruth é tudo isso se equaciona e que, ao longo das noites quentes dos fins de semana de junho, julho e agosto, até 5 de setembro, se pode desfrutar informalmente, como quando se visita uma amiga intelectualmente pródiga.
A minha leitura estival é oposta. É construída de opressão, cinismo, iniquidade, vexames, violência. Violações de todo o género. Ostentação e ganância. Um poder desumano sobre o semelhante. Tudo em nome de grandes verdades e grandes mistérios para enganar, de grandes artes de humilhar… tudo em nome de deuses ou de homens, todos sem nomeação possível de tão baixos e vis. E tantas vítimas indefesas, a maioria com grande nobreza de caracter, gente íntegra!
Na sala de Ruth contempla-se obras de vários autores contemporâneos. São trinta como os anos, embora tivessem sido muitos mais aqueles que passaram pela Casa das Artes de Tavira. Ana Hatherly, Bartolomeu Cid do Santos, Catarina Botelho, Costa Pinheiro, Fernanda Fragateiro, Isabel Sabino, Ivo, João Hogan, João Onofre, Jorge Martins, Jorge Pinheiro, Jorge Vieira, José Faria, Julião Sarmento, Júlio Pomar, Manuel Batista, Manuel João Vieira e João Vieira, Margarida Palma, Maria José Oliveira, Miguel Proença, Nuno Calvet, Paula Rego, Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Pedro Proença, René Bertholo, Samuel Rama, Susana Themlitz, Vespeira, e Xana.
A vida é um quase por acaso. A arte da civilização mais a montante da nossa está a ser destruída. Onde surgiu a escrita, o livro, o código do direito dos vencidos, a observação do universo, altos valores vilipendiados mais de vinte e cinco séculos depois! Triste. Muito triste. Relevos e esculturas que julgávamos eternos foram destruídos à picareta. Em nome de barbáries idênticas que são a causa das palavras amargas que leio com amargura nos três volumes da minha leitura de férias.
Na Sala de Ruth a Humanidade redime-se pela Arte. Como sempre o único caminho. O livramento do espírito está na dimensão artística, em qualquer das suas vertentes.
Uma pequena pintura de Isabel Sabino (1955), aparentemente levíssima como o ar, como a paisagem que se olha da estrada à velocidade com que hoje se percorrem. Colagem de vozes e imagens, frases ditas, pensadas. Momentos. Também aqueles que passam pelo pensamento, trazidos pelo vento… O grande placard de publicidade vazio. Pois, e se aqui a Branca se anunciasse. Pois… O acrílico com um cromatismo a imitar as aguadas de algum apontamento de diário gráfico, aparentemente descomprometido. Rigoroso: o pincel deixa cada linha no seu lugar geométrico, cada mancha no seu espaço certo, a luz e a sombra determinam uma espacialidade minuciosa. Uma alusão dramática, profunda e irónica á paisagem da sociedade atual. Rapidamente. Rigorosamente. Refinadamente.
No meu país oferece-se ilhas da infelicidade grega como prenda de casamento… A Grécia é a alma da Europa. A atmosfera e o mar Egeu deveriam ser o ar e a água que se deveria respirar e beber na Europa. A Grécia é o pensamento e o sonho da Europa. Não pode ser comprada, vendida, transacionada, humilhada, vexada, agredida. Existe. É!
Na sala de Ruth a gaveta do Pedro Cabrita (1955) excede-se, como sempre acontece nas suas obras. E ainda bem que é assim. A baba da tinta “aconteceu” naquela gaveta-mala-objeto incerto com um à-vontade de mestre. A trincha agarra a tinta na proporção certa, a mão de gesto controlado, cerca-se do suporte, e aparentando um só golpe, lento, preciso, duradouro no seu ápice, convocando todo um esforço da atenção daquilo que se entende por momento artístico, remata o movimento e a obra. A cor ilumina de súbito a textura da madeira. O objeto anterior é eleito obra de arte, convocado entre os demais. A finalização será pouco mais, um suporte ali, um puxador acolá, uma simetria, duas diagonais. Composição. Uma obra clássica no seu mais perfeito dinamismo.
A estruturação das sociedades é necessária para regrar comportamentos. Estrutura-se mediante ideias, ideologicamente. Termo que hoje aflige muita gente. Não os gregos democráticos, a maioria. Da Ágora só a arte (Abakonowicks) ainda teima em falar. A globalização implementou a plutocracia, coisa sem rosto, sem vergonha. Mas que ainda não se assume como ideológica.
Um pequeno trabalho, uma parcela de um todo, uma vírgula de um discurso transparente, vago e rapidíssimo. A espátula, veloz como golpe de cutelo, de Pedro Calapez (1953), obriga a contorcer plásticamente contra o suporte as matérias cromáticas, até que permitam a transparência, paradoxos aparentes, descontextualizados do tempo da obra-mãe. O afastamento da parede faz com que a peça pareça suspender, como se respirasse naquele momento e aquele espaço estivesse de facto repleto de ar. Parece ainda estar viva. Vertigem num lapso de momento.
O que sentem as vítimas inocentes quando torturadas até à exaustão sem que saibam do que as acusam. Vertigem num lapso de momento.
Voltando sempre à Sala de Ruth agora para olharmos o Almoço do Trolha de Júlio Pomar (1926). Podemos ver nesta obra histórias de vários náufragos…Mesa-mar onde, meia comida, como barco sobrevivo a grande tormenta, a fatia de melancia repousa, com arribas funestas, de picos agrestes, no horizonte. Em planos mais próximos, vai a colher à boca do menino, como barquinho de ternura, qual salva-vidas de um pai que dá tudo o que tem, náufrago da vida, de um fascismo cor-de-rosa pálido, em que dos pés da mãe se pressupõem novo naufrágio, enquanto um tem “bote” o outro, descalço, é como se fosse náufrago caído, enquanto a pomba assiste e espera que as águas desçam, para encontrar pouso em terra e trazer essa nova… Outra leitura, outro entendimento, a mesma obra. A obra de arte está sempre aberta.
A espera é contínua que o tormento e o medo permanente terminassem. Mas durante séculos vai permanecer a lei do mais forte. Júlio Pomar realiza este trabalho em 1951. O fascismo vai perdurar mais 29 anos… Como Júlio Pomar e muitos outros antifascistas, D. João IV e Marquês do Pombal não conseguiram vencer a batalha de deter a descomunal injustiça, desmedida ganância e a execrável ignomínia perpetrada pela Inquisição em Portugal.
Mas Hogan(1914) rejubila em 1974 e vem para a cidade dançar na praça. Tudo exulta a vitória. Toda a natureza se abre. Sai das suas serranias, ravinas, precipícios, e reconstrói a cidade de natureza, monumento e vitalidade. Dos planos maciços transcende-se para outros completamente rarefeitos. Torna-se moço imprudente, por momentos!
Tão breve a vitória, como também nunca pensou ser a de D. João IV sobre a inquisição portuguesa, pois, assim que faleceu, foi retirado do caixão e, depois de despido das suas vestes reais, foi excomungado por ter recusado ficar com os bens confiscados às vítimas da Inquisição, restituindo-os às suas famílias.
Rapidamente nos encontramos defronte a outro grande senhor da arte contemporânea. Assertivo, Jorge Pinheiro (1931) golpeia severa e rigorosamente o suporte como se respondesse à questão colocada por Júlio Pomar. Dá um murro na mesa, acaba com os náufragos, institui correção, luz que se faz pela cisão provocada por um raio de treva. Ou a ironia geométrica da autonomização do barrete cardinalício, uma e outra face de uma mesma verdade da arte.
De um só triângulo se formavam as vestes dos carrascos inquisitoriais. Todos cobertos para não serem reconhecidos e nada terem de humanos, apenas se lhe rasgavam os orifícios no rosto para os olhos.
Ana Hatherly (1929) tece cartas de amor com finos fios de tinta. Amor indizível. Enlevos têxteis não descritíveis. Talvez a peça mais abstrata de todas da virtual coleção de Ruth. Murmúrios constantes, permanentes, obsessivos. A duas vozes. Um diálogo entre teia e urdidura que constrói a tecedura. O mundo. E a comunicação do mundo. A Web também.
Em nome da verdade, de um deus, e de um direito, desenvolveu-se um tal emaranhado que todos têm medo da teia da Inquisição. Os jogos de poder, os compromissos, as chantagens, são tantas que é dificílimo fugir-lhes, com a agravante de que o medo infligido provoca falsas declarações, delações, incriminações e a oportunidade gera a vingança, a avareza e a ganância. É um conjunto de grande complexidade e que é cada vez mais ampliado nesse sentido para que se torne incontrolável, imbatível e infalível.
Tal como o trabalho de René Bertholo (1935) onde por vários momentos, que podem ser um mesmo nas suas diversas possibilidades, se desencontra a vida consigo própria, reencontrando várias possibilidades de se reencontrar. A estranheza de se poder com os mesmos dados, modificando um pouco, obter-se resultados diferentes. Ou de se manobrar as vontades ou manipular os resultados através de pequenos pormenores.
Aquilo que os governos vendidos a interesses exteriores manifestam para convencerem os povos a permitirem que atuem em favor dos interesses de alheios. Os corruptos nunca tiveram vergonha… Nem os verdugos.
Em Miguel Proença (1963) podemos ser projetados em dois mundos. Um macro cósmico e outro microcósmico. A decisão será nossa. Mas as sombras estarão sempre lá e acompanharão ou o vírus ou o planeta.
A Humanidade fica de permeio. As sombras aparecem sempre. Aparecerão sempre. Já não tenho dúvidas. É intrínseco à natureza humana. Salve-nos a Arte. A Sala de Ruth está em Tavira precisamente para isso.
A Ruth plasma todos os colecionadores, todos quantos amam a arte. Mas Ruth aparece-nos como figura cautelar. Uma das três mulheres onde assenta a genealogia das religiões do livro. Ruth ensina-nos a fraternidade, a tolerância e a integração do Outro, do povo diferente, da cultura diferente. Traz até nós conceitos de partilha com os demais, como o da respiga, tão conhecido dos agricultores tradicionais, que depois do varejo e da apanha, permitem aos mais pobres, o rabisco, uma segunda apanha.
O debate, a partilha da arte por parte dos colecionadores amadores, abrindo as portas das suas salas em pequenas tertúlias ou em museus, é um pouco esta imagem de dádiva, troca e partilha. Daí a importância do amor não opressivo nem obsessivo, daqui a importância da Sala da Ruth.
Mas A Sala de Ruth também é uma obra em si mesma. É uma instalação do pintor Ilídio Salteiro que comissariou a exposição comemorativa do trigésimo aniversário da Casa das Artes de Tavira. Fundando-se esta em torno de amadores da arte, colecionadores e criadores, o pintor concebeu uma sala de colecionador, criando em grupo um perfil que aglutinasse esse universo. O autor também pretendeu resgatar o conceito expositivo das paredes brancas e acéticas das galerias pós-modernistas, onde o principal objetivo é a descontextualização da obra, valorando-a apenas pela cotação do mercado. A salvaguarda de outros valores e as inúmeras interações, muitas delas subjetivas, por isso impossíveis de referenciar, é importante para uma humanização verdadeira da obra de arte e para um debate verdadeiramente alargado.
A Sala de Ruth abre as suas portas como uma opção redentora de muitos conceitos.

Dora Iva Rita, 2015
(continua)

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